Fui despertado pelo meu frenético despertador, que gritava para me submergir do mundo do subconsciente. Arrancado dos meus sonhos, perdi de novo o teu doce olhar. A rotina retomara e metodicamente, quase de olhos fechados, dirigi-me a casa de banho, para a chuva fria matinal do meu chuveiro. A agua fria arrepiou-me e estremeci. Voltei para o quarto para me vestir e pegar nos livros para as escola. A medida que caminhava, a névoa espessa ia se dispersando do meu olhar e a luz lucida dos meus pensamentos emergia das trevas como o sol a brilhar.
Hoje tinha tido um sonho fabuloso; sua mao na minha, a minha sereia voltara para me abraçar, mas apenas por alguns segundos no lusco-fusco do levantar-do-sol,enquanto a noite e o dia dançavam e se confundiam, ela fugira do mar para me abraçar. Mas não ia ficar nos meus braços. Ela era uma criatura misteriosa, mágica, de natureza mistica e nao me podia pertencer. Só saudade podia causar pois os breves instantes da sua presença enchiam a minha vida de calor e desejo. Os seus olhos de um azul profundo, continham mais que o céu, mais que o mar. Continham a sua alma. Os seus cabelos morenos fulvos aos raios de sol faziam-me lembrar o Outono; estação da nostalgia e melancolia, ao mesmo mais, o mastro das Naus lusas de outrora; luzindo erecto e orgulhoso, estendendo as velas brancas e a cruz do sangue de Cristo. Ela era, sem duvida algo de milenário e eterno, a sua pele não se enrugava, o seu cabelo nunca perdia a cor e o seu olhar nunca perderia o brilho mantendo aquele feitiço imortal. Ela era a minha ninfa ou talvez mais, era Vénus que tanto os portugueses amara.
Agora que a minha mente retornava ao real, calculava o meu dia, provavelmente monotono; como todos os outros. Mas o meu coração palpitava como se me tentasse abrir os olhos para algo especial. Era dia de S.Valentim. Tinha-me esquecido completamente do acontecimento. De qualquer forma, para mim o dia nao mudaria muito. Desde que a minha Deusa me abandonara, para me visitar so em sonhos, que nao esperava mais que tristeza e solidão no dia dos namorados.
Ela persistia em manter o fogo da saudade no meu peito, como se houvesse esperança...
Uma onda de melancolia varreu-me,e ouvi sua voz , murmúrio preso num búzio da praia.
O dia de hoje apenas realçaria a minha solidão e desespero. Gostava de me soltar dos seus encantos passageiros mas não conseguia. Ela era a bonança. Desde que se deixara perder pelo o seu apelo, pela sua sedução que não conseguia largá-la. Soltara as amarras e partira para a aventura sem hesitar, agora lutava ferozmente contra tempestades e correntes para tentar escapar ao mar. A luta continuava. Entretanto, longe do enredo da imaginação, esperava pelo autocarro ao relento. Porfim, o autocarro chegou e levou-me como o vento leva suspiros.
Os meus pés andavam ritmados; já acostumados ao percurso; mas o meu pensamento divagava, errante à procura de descanço, abrigo.
Sai do autocarro e segui o trilho rotineiro. Desci devagar dos meus sonhos para a realidade, para não os estilhaçar subitamente. Seria cruel e eu nao precisava de sofrer mais.
Preparado para confrontar tudo de sorriso simpatico, tapei a minha face com a máscara fria que se usa como escudo. Nao veriam a minha dor. Arrastei os olhos pelo chão e levantei-os.
Ali estava a minha frente, parada, uma rapariga bela. Meus olhos observavam, maravilhados. Reparei que o seu olhar carregava a sombra de um fardo pesado, como o meu... De repente o meu coração pareceu bater com calor, como se voltasse de um sono profundo. Abri os olhos com mais vivacidade, talvez algum carinho... Então ela saiu daquele transe pensativo. Os seus cabelos morenos, cor das folhas melancólicas de Outono, ondeou pelo ar, varrendo a brisa. Aqueles olhos, serenos como o mar, pousaram e colaram-se aos meus. Vi, então, no luzir daquelas safiras perfeitas, um suspiro de descanso, um sorriso de pura alegria. Corri para a abraçar, para a cobrir com os meus braços e aquece-la. A alegria irrompeu em mim, estridente, como uma criança ao nascer. Envolvi-a num manto de ternura pura. A sombra que pesava no seu olhar apagara-se. O seu sorriso iluminava tudo, caçando as trevas da minha alma. Como era bom o seu abraço... O seu perfume adocicado enchia-me as narinas com um encanto delicioso. Ai! Que suave era a sua pele, mais parecia seda. Queria manter este momento para sempre, este abraço que me aquecia a alma. Sentia o seu coração bater, em harmonia, com o meu; como se houvesse apenas um ser ali, uma vida, uma alma.
Acordei. O meu despertador gritava, frenético. Eram sete da manhâ. Era dia de S.Valentim...
Sunday, April 16, 2006
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2 comments:
lindo...! porém, o dia de s. valentim é apenas uma data, principalemente para quem n tem o que festejar - o amor, quando existe, está la todos os dias. mas desejo do fundo do coração que encontres com que festejar esse dia. =) adoro-te! bj*
=)eu fiz no dia de S.Valentim por ser um dia mais sugestivo;)
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