Saturday, November 15, 2008

Miraram-se nos olhos como se no espelho. Jamais. A inocência de tentar tinha-se perdido. A confiança vazara. Que sentido? Que vontade? Que alma? Nada. Nada podia falar. Não.
Não. Nenhuma mão poderia escrever. Na luz perdera-se o significado ficando apenas a estranha sensação de uma existência casual. As janelas não insuflavam mais esperança. Nunca. Por mais que o corpo se vista nunca se fará a roupa tão intensa como a pele que sugere. Nenhuma máscara poderia gritar a verdadeira voz de uma face. Do tecto, pela parede, entre as tábuas do soalho. Um lugar gemendo. Desalento. Olhos nos olhos do reflexo distorcido no fio de prata. Olhos nos olhos dos fingindo ser olhos de olhos que olhando fossem mais que simples olhos. Nenhuma voz. E a presença muta derramando lágrimas de lítio.



‘’Traíste’’ pensou Sentimento e toda Palavra soube.
Não existir.


O silêncio nunca morreu. Ficou. Só. Na sensação de passo em falso de todas as existências. Ficou. Só. Entre os corpos a viver a angústia sufocada no deleite. Ficou. Só. Fora da amargura sorrida nas sombras. Ficou. Só. A chorar para sempre.
Afónico.

Monday, October 06, 2008

(Perdi os olhos verdes)


Hoje sonhei-te numa tarde de sol
Perdida numa floresta nostálgica
De bicicleta abrindo

os caminhos do espanto

Vi-te de sorriso,
recebi-te nos meus braços
E senti o frio estalar.

Sonhei-te quente e mística
Olhos sem medo
Tu, de mãos serenas,
pele nua e azul

Sonhei que me ensinavas
E que me perdia em ti

Sonhei
que me sabias voltar a amar


E o dia desabou.


6/10/2008

Tuesday, September 23, 2008

Maresia das Musas


Vinde nereidas, vinde tágides
Amaciai mas uma vez minha voz
E deixai que o meu humano talento
Vos cante na certeza viajante do vento

Vinde, pousai a meu lado o descanso
Das vossas almas marinhas de anjos
Vinde, saciai a minha sede de encanto
E deixai-vos por uma noite neste recanto

Vinde, desfazer os novelos de medo
Que o tempo enrolou nas teias da mente
Ameigai por momento este loucura veemente
Da poesia insatisfeita que se estende demasiado cedo
Prometendo que amanha será um sorriso pleno

Vinde, coroai o meu desalento com círios,
palavras, e a luz do firmamento
Vinde, acompanhai o último
Beijai o decadente
Fechai os olhos
E de novo semeai a terra
E adorai os frutos da humana gente
Que se faz rouca na devoção,

Vinde romper as brumas e as ondas
E amai a humana inocência
Que se perde sempre
Ao estender a mão
Para a beleza da imaginação

Agosto 2008

Monday, June 09, 2008

A tua mão escarlate.
numa ligadura mal atada
segurei entre minhas mãos
silenciosa e assustada
no meu choque
A tua mão pisada de purpura.
vi-a dormir no meu peito
ja lisa e nua
sossegada do medo
de si propria
A tua mão num roxo atormento
desesperei curar
(quis beija-la e o meu amor magoou-a)
Desmaiada em violeta
a tua mão ,
uma asa que treme
depois de pisada...
a tua mão
a tua mão
a tua mão.
o pesadelo mais longo que na noite passei
9/06/2008

Thursday, June 05, 2008

Resignio

Aceito...
nem advinho as manchas
da tua mente
não quero falar nem tocar
receio as palavras que não sei aguentar
na tua voz
Fico aqui...mudo
e encosto-me a esta parede de gelo
e fecho os olhos na tua pele macia
sem a violar.
E espero...
deixo-me suspenso
pelo entretanto neutro
pela a antecipacão do corte.
Aceito.
Aceito deixar de ver
na tua face
o que sei ler
Aceito este intersticio
que me rasga lentamente
porque adormeco nos ultimos raios
do teu perfume.
Deixo as asas ao vento.
Prolongo a agonia que te abraça a mim
(Pudera calar-se este silencio)
E espero.
Deixa-me beijar as palavras que se fermentam
na tua boca...
(Faz do silencio
a nossa fala)

(Vencido da vida)

Há no amor um certo travo de fatalidade
que desperta um sorriso
nos que se despiram
dos sonhos de amantes
e que se viram na sua nudez.

num fragmento de espelho fragilidade humana

e o corpo desmitificado de um velho


29/05/08

Sunday, February 03, 2008

''Entre as cinzas''

Quando me pisaste
entre um amontoado de cadáveres
eu soube sorrir

entre o fedor mórbido da morte
cantavas tu
como um estandarte firme
insolente frente ao vento
que o quer ferir.

E entre os raios de luz,
de brilho do teu olhar
eu chorava já não sei bem
se de alegria,
admiração
ou agonia

eras livre e eras força
somente essência

e eu era um mutilado,
nem metade do que seria sem sofrer
E no entanto não cegava a tua luz
não sofria o teu valor

eu morria e tu não.



Dezembro 2007